sábado, junho 23, 2007

Extremamente alto & incrivelmente perto


Dos bons livros há de se dizer da história que prende até chegar ao ponto em que o final está próximo e o leitor divide-se entre curioso pela conclusão e econômico para que aquelas poucas páginas que faltam durem mais tempo que a sua própria ansiedade.

As palavras tem de escorrer por entre as linhas do livro, prendendo a atenção enquanto mantém a naturalidade da conversa. Enquanto o narrador divide suas histórias e descobertas, compactua para que elas também sejam do leitor.

Oskar é um menino de 9 anos que escreve cartas para Stephen Hawking, Ringo Star e cujo pai morreu um ano antes no atentado do WTC:

"Embora seu caixão estivesse vazio, seu closet estava cheio. ".

Além de Oskar, outras pessoas estão nessas páginas. O leitor é convidado a participar de outra história, através de cartas entituladas "Por que não estou onde você está" - daí talvez a mítica que o autor Jonathan Safran Foer ser "discípulo" de Paul Auster.

"De repente fiquei tímida. Não estava acostumada `a timidez. Estava acostumada `a vergonha. Timidez é quando você desvia o rosto de algo que quer. Vergonha é quando você desvia o rosto de algo que não quer."

Há muitas estórias dentro da história, muitos espaços. Há espaço para saber que `as vezes as botas de Oskar ficam pesadas, para ler cartas, para partilhar da conversa dele com a avó pelo walkie talkie, para sentir um friozinho na barriga quando ele sai por Nova York com uma chave na mão tentando descobrir o que ela abre.

"Comecei a arrumar tudo, e foi aí que notei mais uma coisa estranha. No meio de todo aquele vidro havia um pequeno envelope, mais ou menos do tamanho de um cartão de internet sem fio. Mas quê? Abri, e dentro dele havia uma chave. Mas quê, mas quê? Era uma chave de aparência esquisita, obviamente para abrir algo extremamente importante, porque era mais curta e mais grossa que uma chave normal. Não consegui explicar: uma chave curta e grossa, dentro de um pequeno envelope, dentro de um vaso azul na prateleira mais alta do closet."

Danado esse menino Oskar e suas encucações, devaneios, e sua busca pelo que a chave abre.

"Li o primeiro capítulo de Uma breve história do tempo quando o Pai ainda estava vivo e fiquei com as botas incrivelmente pesadas ao perceber como a vida é relativamente insignificante e como, se comparada com o universo e com o tempo, a minha existência não faz diferença nenhuma."

Nesse meio tempo ele interpreta Hamlet - ou melhor, a caveira de Hamlet - trecho que rende um de seus mais hilários devaneios. Oskar aquece o coração daqueles leitores que pensam demais, estímulando um retrato seu como uma criança de oito anos, ora relembrando que oito anos ainda existe dentro do seu coração.

"Estava ficando difícil manter todas as coisas que eu não conhecia dentro de mim"

Oskar encontra pessoas incríveis em sua caminhada:

"Tantas pessoas entram e saem da vida da gente! Centenas de milhares de pessoas! Você precisa manter a porta aberta para que elas entrem! Mas isso também significa que você precisa deixá-las sair!"

"Extremamente Alto e Incrivelmente Perto" apareceu nas minhas mãos numa recente viagem a NY e não veio na sua edição americana. Na chegada em SP e na primeira ida `a merça, três dinheiros para quem adivinhar que livro me esperava de frente na estante, aqui na (ótima) tradução de Daniel Galera.

Talvez o mais incrível livro é aquele que desperta o leitor `a consciência da existência do universo comum, permitindo ao livro inspirar e transportar-se para a vida real.
Oskar tem um caderno chamado "Coisas que aconteceram comigo". Um pequeno álbum que ele monta de fotos com tudo que aconteceu com ele - e um pouco do que não aconteceu também.
Eu tinha cadernos sem nome. Agora eles nome já tem.


"O Sr.Black me perguntou como eu ia me sentir na cama, naquela noite, se não embarcasse no ferry. Eu disse "Botas pesadas, provavelmente." "E como vai se sentir se embarcar?" "Cém dólares." "E então?" "Mas e enquanto eu tiver no ferry? E se ele afundar? E se alguém me empurrar para fora? E se for atingido por um lança-foguetes portátil? Não haverá hoje `a noite, hoje." Ele disse "Nesse caso você não vai sentir nada, de qualquer forma." Fiquei pensando naquilo.

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1 Comments:

Anonymous Braga said...

Muito bom o seu blog. Parabéns!

1:04 AM  

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